Falar sobre suicídio é a melhor forma de combater o tabu

à falta de conhecimento de causas que podem a levar a pessoa a tirar a própria vida. Com média de 32 suicídios por dia, o Brasil lidera ranking na América Latina, segundo a Organização Mundial de Saúde, como o que mais registra casos de depressão e ansiedade, doenças que levam o indivíduo a se matar

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Edilson dos Reis, capitão do Corpo de Bombeiros Militar de MS, é capelão hospitalar no HU da UFMS e trabalha com prevenção ao suicídio.

Suicídio, assunto considerado delicado, persiste gerações como tabu devido à falta de conhecimento de causas que podem a levar a pessoa a tirar a própria vida. Com média de 32 suicídios por dia, o Brasil lidera ranking na América Latina, segundo a Organização Mundial de Saúde, como o que mais registra casos de depressão e ansiedade, doenças que levam o indivíduo a se matar.

Desconstruir o tabu de que não se deve falar sobre o suicídio é um dos primeiros passos, explica Edilson dos Reis, capitão do Corpo de Bombeiros Militar de MS. Formado em Bioética, Filosofia e Saúde Mental, atualmente é capelão hospitalar junto ao Hospital Universitário da UFMS (Universidade Federal de Mato Grosso do Sul). Nesta quinta-feira (21) ele esteve em Dourados onde ministrou palestra para os integrantes da corporação e profissionais da saúde, sobre o tema "prevenção ao suicídio".

A importância de se desconstruir o mito, segundo o capitão dos Bombeiros, que lida com pacientes diariamente, é representado em estatística de que 90% dos casos de suicídio podem ser evitados quando se cria espaço de circulação da palavra, para que se possa falar abertamente e encontrar ajuda.

Em Dourados, pessoas que enfrentam questões emocionais que levam ao sofrimento, segundo ele, podem procurar ajuda nas escolas clínicas de psicologia, que ofertam atendimento gratuito, assim como nos Caps (Centro de Atenção Psicossocial), ou um amigo, um líder religioso, para falar sobre a dor, a angústia. "Quando construímos espaço da circulação da palavra, podemos criar o espaço da prevenção", afirma Capitão Reis.

Mas nem sempre é fácil lidar e diagnosticar uma pessoa com problemas como a depressão. Muitas delas não falam sobre seus problemas. Como há cerca 48 tipos de depressão, em escala da leve a crônica, um dos primeiros sinais da doença é a mudança de comportamento. É preciso, segundo o especialista, questionar diretamente o que está acontecendo, onde dói e como pode oferecer ajuda. Mas alerta a necessidade de um diálogo aberto e sem julgamento.

Acontece que pessoas com depressão, ansiedade, devido ao tabu, não sabe a quem procurar ajuda e chega a sentir vergonha de falar de sua dor. "Temos que conscientizar a sociedade que pessoas em estado depressivo ou depressão não é louca e sim um indivíduo que precisa de ajuda", esclarece. As doenças mentais, os transtornos mentais enquadram-se nas doenças da negação em que o indivíduo rejeita estar doente. "Tudo é um processo de conscientização e de quebrar esse tabu na sociedade", reafirma.

Qualquer pessoa pode ser o primeiro interventor de quem tem sinais de depressão e com indícios de suicídio. Ao perceber as mudanças de comportamento numa pessoa e notar que ela necessita de ajuda, é preciso, segundo Edilson dos Reis, recomendar um profissional de saúde mental, psicólogo ou psiquiatra, para iniciar tratamento.

Mas a grande dificuldade, conforme tem constatado, é a adesão ao tratamento medicamentoso e psicoterápico, pois geralmente quando o paciente tem uma melhora bem estar e cognitiva, acredita que já está na hora de interromper o tratamento. "Aí que está o perigo. Tem que continuar, a adesão é primordial", explica.

Não existe um prazo determinado de tratamento, o que há, segundo o especialista, é o início do tratamento, para conquistar qualidade de vida e condições de ter prazer de viver. Por isso, não existe um término, que dependendo do caso, pode ser para o resto da vida. Dos Reis diz que não há explicação sobre o que leva a pessoa ao suicídio. O que se sabe é que têm origem circunstancial, ambiental, social e familiar, além de bioquímico, patologias mentais.

Muitos dos casos são circunstanciais e o que ocorre e leva a cometer o suicídio, de acordo com dos Reis, é o desespero e a dor insuportável, mas é preciso entender que muitos agem pelo impulso da impulsividade. Ou seja, pessoas que não tem o controle do seu temperamento. Elas, muitas vezes, acreditam que a dor vai se estender a vida toda. "E não é bem assim, pois tudo tem um tempo determinado e quando o indivíduo quer ajuda e a procura, melhora", pondera.

Um dos grandes problemas da atualidade, observada em todo o mundo, enfatizada pelo capitão Edilson dos Reis, é uma crescente geração de jovens e adultos infantilizados. Pessoas que não sabem lidar com frustração, que criam expectativas e quando não são realizadas, se frustram. Outra observação é a falta de limite. Daí a importância de entender a palavra "não", considerada pedagógica.

"É preciso conscientizar que o mundo não gira da forma como elas querem, pensam", afirma o especialista. Por acreditarem que seria desse jeito, esses indivíduos começam a sentir frustrações na vida, principalmente na relação de afeto. Ele observa que, hoje, há uma geração de crianças e adolescentes que não tem relação de afeto dentro da família, por isso se frustram rápido e agem pelo impulso. "A impulsividade é uma das causas que leva o jovem a cometer o suicídio, porque são imaturos emocionalmente".

Dos Reis reafirma a necessidade de compartilhar a dor, a angústia. E quem a ouvir, que ouça com fraternidade cordialmente e não julgue, pois uma das grandes questões para a pessoa não procurar ajuda é o fator julgamento. O especialista destaca que não existe "frescura" na depressão, no suicídio. Existe dor, sofrimento e julgamento.

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